aiais de Sófocles - Encontro no anfiteatro, 10 de maio de 2026 às 17 horas
- 3 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 7 dias

Residência dramatúrgica
de 8 a 13 de maio 2026
Encontro no anfiteatro
10 de maio às 17 horas
Com Carolina Dominguez, Cláudio da Silva e Rita Ferreira
Apoio técnico de Luís Gabriel
Na sede da Associação Cultural e Ecológica Palettentheater Kollektiv
Estrada do Está Bem
CP 5101
7665-802 Sabóia, Portugal
Contactos: Kontakte | Palettentheater
Nos primórdios do teatro antigo (como da democracia), os actores misturavam-se com o público (ou com aqueles que gozavam do estatuto de cidadão) e só se distinguiam pelo que vestiam e calçavam, nomeadamente sapatos de sola espessa chamados coturnos. Faziam-no ao ar livre, na natureza, num espaço inicialmente circular que se designava choros ou orchestra, muitas vezes junto a um bosque sagrado, e também na praça pública de todas as cidades. A plataforma de elevação dos actores, a que, muito mais tarde, se convencionou chamar palco, apareceria apenas nos séculos seguintes, aqueles que constituem a época clássica do império grego, no qual Sófocles nasceu e para o qual trabalhou, contribuindo enquanto artista, pensador e estratega militar para o seu apogeu, como para o da tragédia, que obedece a uma estrutura fixa e mantém algumas características como o contraste entre a expressão lírica e falada. A tragédia faz revelar as fragilidades da nossa condição humana e as consequências da irreflexão das nossas acções, e é aqui que nos encontramos: a olhar para uma espécie de piedade que não se esgote no gesto de altruísmo, mas que, ao acolher as vicissitudes do outro, se possa abarcar a si mesmo e, assim, capacitar o drama, ou seja, aquilo que se faz, de contornos verdadeiramente humanitários e imprescindíveis à possibilidade de futuro desta civilização.

Se os gregos reflectiam na tragédia a sua própria história através da celebração da lenda heróica em relação com a realidade política do seu contexto e, a partir de Sófocles, com a responsabilidade individual, resultando num espectáculo com interesse activo para todos os presentes, também nós queremos começar por propôr encontro semelhante num anfiteatro rural, a nossa agora - longe da cidade, onde quase tudo em ausência da colectividade parece ser jogado, e sem limites de nacionalidade, género, idade, classe social ou qualquer outra fronteira ainda e de novo tão em voga. Entre árvores, arbustos, patos, galinhas, pássaros, gatos, cães, sapos e insectos, como hortas e canteiros de flores exibindo, embora abraçando já mais um período de seca extrema, o esplendor que a abundância de água e os cuidados prestados, na última estação, lhes proporcionaram, convidamos locais e visitantes a constituir comunidade multiespécie na nossa pequena quinta pedagógica. No café/bar teremos chá, café, limonada e outras bebidas, como alguns bolos e petiscos; para o repasto serão bem-vindos a contribuir com o que/se assim o desejarem.
A escassos metros da água corrente na ribeira de Telhares, traremos palavras de e sobre Sófocles, entre outras a partilhar, no âmbito da residência de dramaturgia para a construção do espectáculo “Ájax de Sófocles“ (a estrear em setembro, no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada). Esta residência pretende não só desenvolver o texto de partida [adaptado através da consulta de ÁJAX, Sófocles, Introdução, versão do grego e notas de Maria Helena de ROCHA PEREIRA, Edição da FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN, 2024, THE COMPLETE PLAYS OF SOPHOCLES, A New Translation, Robert BAGG and James SCULLY, HARPER PERENNIAL, 2011, AÏAS/AJAX, Sophocle, Texte établi par Alphonse DAIN, revu par Jean IRIGOIN, puis par Paul DEMONT, LES BELLES LETTRES, 2022 e outros apoios, entre os quais LES TRAGIQUES GRECS, ESCHYLE. SOPHOCLE. EURIPIDE., Théâtre complete avec un choix de fragments, TRADUCTION NOUVELLE, NOTICES ET NOTES DE VICTOR-HENRI DEBIDOUR, EDITÉE AVEC UNE INTRODUCTION GÉNÉRALE ET UN DOSSIER SUR LA TRAGÉDIE PAR PAUL DEMONT ET ANNE LEBEAU, Livre de Poche, La Pochothèque, Éditions de Fallois, 1999], como também aprofundar o delineamento do mapa de criação artística a partir das reflexões decorrentes deste encontro público. Contamos com a vossa participação directa!

Não te insufles de vaidade por teres mais poder que outros na força dos teus braços ou no aglomerado das tuas riquezas. Um único dia pode abater ou elevar tudo o que é humano.
A partir de “Ájax” de Sófocles (aproximadamente 445 aC)
Ájax de Sófocles
17 - 20 Setembro 2026
Quinta a sábado 21H | domingo 16H
Teatro Municipal Joaquim Benite
01, 02, 03, 04 e 08, 09, 10, 11 Outubro 2026
Quinta a sábado 19H | domingo 16H
ZDB Marvila 8
Aïas ou Ájax Telemônio ou, simplesmente, Ájax, o Grande, era no fim da guerra de Tróia, tido como o segundo melhor guerreiro grego, apenas atrás de Aquiles. Com a tentativa gorada de assassinar Ulisses, e o seu exército, Ájax cai em desgraça e suicida-se. Mas o seu meio-irmão, Teucro, apesar da desonra do suicídio e da oposição de Ágamemnon e Menelau, decide prestar-lhe as honras devidas.
Quem, como Ájax, levado por instintos primários como o ímpeto de vingança por uma injustiça, não foi vítima de ilusões causadas seja pelas suas próprias fragilidades, por intervenção de outros ou por um acontecimento ou um determinado contexto social? A era da informação ou, melhor, da descredibilização da informação e a névoa que tantas vezes envolve as suas fontes é, hoje, o contexto ideal, para o desenvolvimento e propagação de discursos políticos, medidas sociais e ideologias cruéis, injustas, anti-democráticas e regressivas. Assim, desenha-se a pouco e pouco o caminho para o total eclipse da declaração universal dos direitos humanos e da dignidade humana e dos direitos de todas as entidades vivas sencientes e, assim, se permitem, vulgarizam e disseminam globalmente actos profundamente desumanos. Como enfrentar esta era, este tempo, esta ameaça à degradação completa e abismal dos nossos valores civilizacionais?
Vivemos, pois, constantes ataques à democracia e à evolução civilizacional. A ausência de diálogo, os extremismos e o ruído ensurdecedor do nosso tempo ganham força e perpetram o seu ataque através da fragilização do pensamento e, consequentemente, do discernimento. As limitações à liberdade de expressão, a desinformação, ou a sua manipulação, e o seu aproveitamento político e económico minam o coração da democracia. Que fazer perante a demência social instalada, perante o histerismo social manifestado no consumismo e na velocidade desenfreada? Ájax de Sófocles é uma reflexão sobre os limites do poder e é também, parece-nos, uma resposta às ameaças totalitárias e totalizantes. Uma resposta que vem do fundo da nossa civilização e do berço da democracia.
Partindo do texto de Ájax, provavelmente a mais antiga tragédia de Sófocles, este espectáculo, que se estreia no TMJB, faz uma aproximação teatral ao texto e à figura de Sófocles, cruzando-os com depoimentos, narrativas e intervenções artísticas no sentido de criar um objecto original e acutilante. O que nos propomos, perante o contexto que vivemos, é a apresentação de um teatro profundamente humano e que nos retribua o olhar. Um teatro olhos nos olhos.
Texto Sófocles
Encenação Cláudio da Silva
Dramaturgia Carolina Dominguez, Cláudio da Silva e Rita Ferreira
Cenografia Gustavo Sumpta
Desenho de Luz Pedro Paiva
Música João Martins
Interpretação Cláudio da Silva, Crista Alfaiate, Marcello Urgeghe e Nuno Lucas
Co-produção Soluços D’Inverno, Teatro Municipal Joaquim Benite e Galeria Zé dos Bois
Criado em residência artística no TMJB, ZDB e Palettentheater Kollektiv
Apoio República Portuguesa - Cultura | DGARTES - Direção-Geral das Artes








Comentários